
Foi quando, a garota, com toda inocência, falou: “droga, hoje vou perder o ultimo capitulo da Sinhá Moça! Queria tanto assistir!”
Imediatamente pensei: “Como ela pode assistir novela? Ela é cega”. Eu sei! Foi insensibilidade da minha parte pensar isso, mas não pude evitar. Nesse instante, a cobradora, que antes não parecia muito animada com a conversa, logo puxou assunto e foi encaminhando o assunto feminino. Logo uma outra garota ali perto também se junto as duas na conversa. A garota cega começou a mencionar sobre todas as novelas que havia “visto” em que havia uma personagem deficiente visual, e como ela se identificava com as personagens. Essas palavras me levaram a um outro pensamento. Um pensamento menos critico, um pouco mais caridoso e reconfortante. Mas logo passou quando a garota perguntou qual era a novela que o ator Marcos Frota havia feito o papel de deficiente visual. Não lembro qual foi a resposta, não prestei muito atenção nisso. Mas percebi o espanto da garota ao saber que Carolina Dieckmann e ele haviam se separado. Fato que já faz uns cinco anos que ocorreu. A frustração nos olhos sem vida da garota, ou seria ao redor deles, foi tão grande que me tiraram toda a atenção do que acontecia ao redor. Ela perguntava: Mas por que eles se separaram? Ele fez alguma coisa? Ela fez alguma coisa? A cobradora não sabia responder, apenas se esquivava das perguntas perdidas da garota com um simples “não sei”. No fim a garota falou: “deve ter sido por ciúmes dele, só pode”. Então, o ônibus parou e abriu as portas no terminal. Fui acompanhando a fila ouvindo a voz da garota ao longe que ainda falava com a cobradora. Finalmente a voz da cobradora disse: você já pode descer, garota.
A garota cega, agradeceu se despediu e saiu, tirando sua bengala de debaixo do banco. Eu sabia que devia haver uma bengala em algum lugar!
No fim das contas, enquanto caminhava em direção ao meu serviço eu pensava:
- Os estudiosos sempre dizem que deficientes tem a capacidade de compensar sua falta de habilidade em algo com outra parte do corpo. No caso dessa garota, ela substitui pela boca.
O que ela não podia ver, ela falava! E como falava!
Um comentário:
Oi Vanrogue!
Essa viagem foi especial, né?
Olha... eu sempre mergulho em cenas do dia a dia. "Viajo" além das aparências e às vezes me perco em meio a tantas perguntas e percepções. É por isso que escrevo. Pra que esses momentos se eternizem para mim.
Foi uma leitura de agradável fluência. Isso é bom.
Beijinho!
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